Aos 30 e a Solidão

Em 20.06.2017   Arquivado em Terapiando

“Yes, I understand that every life must end
As we sit alone, I know someday we must go
(…) Did I say that I need you?

É uma vida de silêncios, de meias verdades. Ouvindo atrás da porta, deduzindo, criando, supondo… sofrendo.
Ninguém nunca me disse que não saber dói, que os gritos mudos fazem chorar. Mas eu descobri, muito antes até de entender o que era o mundo.
Na verdade, o mundo pareceu ser isso por muito tempo: ninguém nunca vai me contar nada, as pessoas vão me abandonar, a vida é uma competição de beleza e inteligência, se não estiver no padrão imposto por uma ou mais pessoas, apelidos surgem e não há chance de existir autoestima.

Quando não se é desejado, precisa-se lidar com a rejeição muito cedo. Eu não deveria estar ali e isso sempre foi muito nítido. Não havia espaço. E isso explica tanta coisa!!!

Explica a falta de afeto, empatia, cumplicidade, amizade, aconchego, parceria…
Aos 13 anos gostar de alguém? Puta.
Aos 15 anos namorar alguém? Se der, é puta.
Puta.
Mesmo que ninguém nunca tenha me perguntado se já, se quando, se quero, se existem dúvidas.

Tive que descobrir o mundo, aquele que já era todo distorcido, sozinha.
Enfrentar ameaças sozinha. Numa tentativa de proteger o desconhecido, o escondido, o trancado a 7 chaves por todos.
Tive que enfrentar a vida e a morte sozinha.
Sempre sozinha.

E agora, ainda agora, sigo como se não fizesse parte de nada, sem entender nada. Talvez alguém me dê notícias. Talvez siga o mistério.
Eu nunca vou entender.

Aos 30 e o Despertar

Em 01.04.2017   Arquivado em Terapiando

Fora do ar.
Foi assim que um período da minha vida foi definido hoje.

– As coisas foram acontecendo, os anos foram passando, e você sequer absorvia o que estava ao seu redor.
– Sim, eu me dei conta disso faz pouco tempo. Percebi que durante muitos anos deixei de sentir e ver enquanto andava pela rua. Não sentia mais o vento mexendo o cabelo, as folhas. Não sentia o cheiro dos lugares, não olhava a beleza das flores, das árvores, dos bichinhos, coisas que sempre fiz. Aliás eu sentia sim, eu sentia medo e queria sair dali rapidamente.

Eu dormi aos 20 e acordei aos 30.
Dormi na fase mais linda da vida, aquela de experimentações, do “temos todo tempo do mundo”. Da certeza de poder tentar aqui, ali porque há tempo!
E acordei numa fase onde eu sinto que não tenho mais tempo a perder. A vida passa rápido demais, não dá pra aceitar certas coisas, não dá pra me contentar com pouco.

Acordei. Quero viver.
E eu escrevo isso emocionada, pois há exato 1 ano atrás eu buscava ajuda psiquiátrica porque a minha única vontade era morrer.

Eu quero viver, eu não sei como viver. Eu me sinto sozinha nessa jornada.
Quero trabalhar com o que eu gosto e não com o que eu acho certo.
Quero fazer coisas que me agradem.
Quero viver o que me tira sorrisos, que faz eu me sentir realizada, grata, inteira, plena, capaz, foda.

Não faço a menor ideia do ponto de partida disso tudo. Talvez seja esse aqui, do me dar conta do que eu quero e principalmente do que eu não quero e não aceito viver.

Bora que o relógio não para não!

Aos 30 e os Amigos

Em 01.04.2017   Arquivado em Terapiando

– Você não tem amigos, não é?
– Err, tenho, acho que tenho sim…
– Digo, você não tem um círculo de amigos. Que saem, se divertem, fazem coisas. Eu vejo você dizendo que se comunica muito com as pessoas pela internet, mas amigos mesmo não.
– É que… é.

E vieram mais diálogos, mais frases, mais constatações. Coisas que se eu tivesse ouvido no começo da terapia, teria ficado triste e hoje eu consigo compreender sem pirar.
Eu já falei diversas vezes sobre isso, sobre essa solidão, mas confesso que dá um nó desconfortável quando ouço alguém falando. Não foi a primeira vez, o André já falou em outros momentos.
Eu não tenho amigos.
Tá, você aí pode se sentir incomodado com essa afirmativa e pensar “mas e eu aqui sua ingrata?”. Não estou desconsiderando você, nem você. Vocês essenciais diversas vezes. Mas eu sinto um vazio é aqui.

E dói isso aí, viu?
Dói porque eu estou me redescobrindo, me reconhecendo, e a insegurança, o medo do novo, isso tudo é muito forte. Eu não sei o que é ser chamada – e ir – a coisas que todos fazem ou já fizeram.
Eu tinha amigos na escola. Em alguns momentos haviam reuniões, encontros pontuais.
Eu tinha amigos na faculdade. Em 4 anos, deixa eu parar pra pensar aqui, acho que só saí para diversão umas 2 vezes.
Eu tenho amigos na internet. Também posso contar numa das mãos o quanto saímos.

E isso aqui não é sobre culpa. Não é sua, não é minha. Por muito tempo eu não consegui cumprir a minha parte do “vamo?”.
Mas bate um cansaço, sabe… Um cansaço de ser eu, de não ter relações comuns, ou normais. Aquelas que todo mundo tem.
Eu não tive uma amiga que viesse me tirar da cama, arrastar pro chuveiro e dar banho a força.

Sei lá sobre o que que é esse post. Talvez seja como um basta.

– Agora você está descobrindo as suas vontades, do que você gosta, vai encontrar pessoas nessa mesma sintonia. Agora que você vai começar a desbravar o mundo, seja dirigindo como quer, seja num curso, numa academia, em qualquer que seja o ambiente, você vai conhecer pessoas e a partir daí, quem sabe descobrirá um círculo de amizade?
– Eu não sei o que é isso, não sei como reconhecer. A sensação que eu tenho é que sou desagradável… Mas não falo isso com tristeza. Sei lá, isso tá estranho…
– Você vai reconhecer e vai se permitir sim. Você já está nesse processo.

[Filha 2] Princesa Larissa

Em 12.03.2017   Arquivado em Terapiando

Antes de tudo, preciso contar algo que as pessoas não sabem. Assim que Yasmin se foi em 2009, meu relacionamento com André ficou esquisito. Eu sofrendo o mundo, ele super prático sem entender porque eu ainda estava sofrendo 1 mês depois. Isso foi se arrastando até maio de 2010, quando no primeiro dia das mães sem filha, eu só chorava. Brigamos, voltei pro Rio de Janeiro naquele dia, meio desesperada, no impulso.
Fiquei no Rio até agosto de 2010, não era o momento de voltar pra casa dos pais, não deu muito certo. Voltei pra São Paulo, mas estávamos separados em relacionamento.
Combinamos que eu trabalharia, estudaria, que iria me estabilizar em SP e enquanto isso moraríamos juntos.
Fomos ao Rio de Janeiro, férias dele, feriado de São Sebastião, dia 20 de janeiro. Pois é. Mesmo separados, rolou.
Ansiosa para iniciar a Pós-Graduação, o curso no Centro. Passou dia 04 de fevereiro e nem senti falta da menstruação que é bem certinha. Veio o fim de semana e uns olhares suspeitos do André. Bastou eu comer kani com amora pra ele afirmar: você está grávida. Achei a suspeita engraçada, afinal não estávamos muito próximos nos últimos meses.
Bem, chegou segunda-feira, dia 07 de fevereiro, e a ideia ficou na minha cabeça. Mesmo sem acreditar fiquei ansiosa, nervosa, medrosa. Pedi pra ele comprar um teste de gravidez e assim que ele chegou do trabalho, por volta das 19 horas, decidi fazer. Indicam que seja o primeiro xixi da manhã, pelo acúmulo de Hcg na urina, mas fiz mesmo assim. Saí do banheiro sem coragem de olhar o resultado, entreguei a ele e fiquei sentada, gelada, esperando o que viria. Acho que toda mulher tem medo dos dois resultados…
– “Positivo..”
– “Oi?!”
– “Positivo, duas listras, você está grávida…”
Nesse momento o ser humano XY vira pro computador e volta a fazer o que estava antes. Nesse momento o ser humano XX encosta na parede pra ter certeza que não vai cair e chora. Chora de soluçar! De medo, de alegria, de tristeza, de alegria novamente e de mais medo ainda.
Não lembro o que aconteceu depois mas tenho certeza que não houve comemoração. Sabíamos o que viria, todo repouso, nós afastados um do outro. Uma gravidez nada planejada, pelo menos não por nós dois.

André foi para o Workshop da empresa e eu aproveitei para contar para amigos e família sobre a gravidez, pelo msn. Também iniciei ali, naquele 09 de fevereiro, o meu blog que me acompanhou durante toda a gestação.
Dia 10 de fevereiro fui ao hospital, pois queria saber como estava meu bebê e chegar na primeira consulta de pré-natal com uma ultra. Foi a maior besteira que já fiz! Pouco tempo ainda, 5 semanas, então não apareceu nada e meu HCG estava baixo. Primeira suspeita: aborto ou gravidez ectópica. Saí péssima de lá mas decidi confiar e abstrair.
Dia 14 de fevereiro foi a primeira consulta de pré-natal e após entregar os exames o que ouvi foi: “vá ao hospital e me liga de lá para marcarmos dia pra retirar sua trompa”. Fui ao hospital chorando muito pelo caminho, conversando com minha mãe pelo telefone. Encontrei o André depois. Resultado da ultra: Saco Gestacional medindo 7 mm. Hcg já alto. E dessa vez quem veio me assustar foi o plantonista: “volte aqui para repetirmos a ultra, pois já era para ter aparecido o embrião, ou você abortou ou não tem embrião”.
Enquanto esperava o tempo passar, voltei no consultório para buscar pedidos de exame de rotina de pré-natal, coisa que insisti pra fazer.
Dia 24 de fevereiro tive consulta com outro obstetra, um que procurei indicação em fóruns, pois era tido que era humanizado. Realmente, até determinado momento ele foi.
Naquele início ele me acalmou, fez ultra no consultório e eu ouvi pela primeira vez o batimento cardíaco do meu bebê. Ele disse que acompanharia o tamanho do colo uterino para avaliar se haveria necessidade de circlagem, pois era segunda gestação e talvez não houvesse o mesmo problema.
Em março, foi carnaval e fomos pro Rio de Janeiro. Sobrinhos fantasiados, festa! Sabia que não poderia viajar nem tão cedo de novo então aproveitei bem esse comecinho.
Em abril, fiz a ultra morfológica e deu 70% de chance de ter menino e parte minha queria uma menina. Eu chorei com isso, não queria ter menino não! E preciso dizer que eu tenho pra mim que o bebê ficou bem emputecido comigo e se recusou a mostrar o sexo até as 24 semanas.
Tive alguns sangramentos esse mês, vivi no hospital, foram muitas ultras medindo colo. Num determinado dia, achei que estava ou parindo ou morrendo, com muita dor. Passei dia no hospital! Menti que estava melhor pra receber alta, não tinha dado nada em exame algum. Saímos de lá tarde da noite, bebi uma coca no bar da esquina e arrotei. Arrotei muito! E melhorei.

Maio, chegou meu mês favorito! Ele começou um pouco triste, pois no dia 04 de maio ao fazer a ultra de colo uterino, que diminuiu, a médica disse que só faria enxoval quando chegasse no nono mês, dando a entender que eu não teria muita chance de chegar. Foi bem duro ouvir isso, fiquei mal, senti medo, vergonha e muita coisa ruim.
Foi dia das mães, foi meu aniversário um pouco chateada porque não ganhei parabéns do André. Foi quando ele sentiu bebê mexer pela primeira vez.
Veio junho e lá estava eu passando por grandes emoções. Bebê super bem e agora temos a certeza que é uma menina!!! Só fiquei preocupada, pois a ultra de colo uterino mostrou que ele diminuiu muito e começava a afunilar, abrir por dentro. Marcamos consulta com o Obstetra pro dia seguinte. Ah, e antes de dormir escolhemos o nome da bebê: vai se chamar Larissa!
Fui na consulta, circlagem agendada para semana seguinte, dia 09. Eu estava apavorada!
Passei dia 10 inteiro no hospital, demoraram a tirar minha sonda, estava triste por ficar tanto tempo sozinha. O sangue que vi na hora do banho me deu muito medo, fiquei assustada mas não tinha com quem conversar, desabafar.
A alta da circlagem só veio dia 11. Muito diferente da terceira gestação que fui embora no mesmo dia e sem esses transtornos.

Dia 22 de junho seria dia de consulta com Obstetra mas ele cancelou, pois foi fazer um parto. Como eu estava sentindo muita dor e pressão na direção dos pontos da cerclagem, decidi ir ao hospital. Ainda bem que eu fui, pois estava com infecção urinária e na ultra vimos que o colo abriu todo, só os pontos estavam segurando. Iniciou assim meu repouso absoluto e a parte mais difícil de toda a gravidez, com mais incertezas, mais desconforto.
Ainda em junho, minha cunhada foi nos visitar e fez cuscuz doce pra mim. Eu estava com desejo!!!
Final de junho chegou meu sapatinho vermelho de um amigo secreto que fizemos entre as buchudas. Sapatinho vermelho representa saúde e foi muito bom esse momento.
Julho foi um saco. Gripada, cansada de ficar só deitada, tinha vontade de andar, comprar as coisas da minha filha como toda grávida. Só podia sair para consulta e era todo um processo. Banho acontecia em menos de 5 minutos, em dias espaçados e sentada numa cadeira. Preciso dizer que eu passava meus dias sozinha com Larissa na barriga, pois André trabalhava. Comia algumas frutas deixadas ao lado da cama, alguns lanches e só jantava quando ele chegava.
Fim do mês ele lavou as roupinhas de bebê, dei mil instruções. Sentir aquele cheiro invadindo a casa me renovou. Cortar todas as etiquetas mesmo deitada, fez eu me sentir participando de algo. Meu enxoval foi todo de presente de família e amigos virtuais. TODO!

Em agosto tomei injeção de corticóide. Troço doído da porra! Começou uma tortura psicológica com baixo ganho de peso da Larissa. Em nenhum momento foi associado ao meu estado, foi logo visto como algo anormal e inesperado. Com 36 semanas o obstetra humanizadinho começou a falar que poderia fazer a cesárea naquele momento para me poupar emocionalmente disso tudo. E condenou demais minha opção pela casa de parto.
Meu único problema era um colo uterino que não segurava um bebê, não teria problema algum parir! Mas ele fez eu pensar que tinha.
Setembro foi… foi inteiro pensando que ela nasceria a qualquer espirro.
Com 37 semanas, fui ao consultório do humanizadinho da estrela para pedir que ele retirasse a circlagem, pois eu não teria dinheiro para pagar o parto com ele, estávamos muito fodidos financeiramente. E ele se recusou. Disse que se retirasse a circlagem e a bebê nascesse, ele sairia no prejuízo.
O toque que ele deu foi tão bruto, mas tão bruto, que comecei a contrair. de 3 em 3 minutos. Não poderíamos ir de táxi para a maternidade, pois estava em horário insuportável de trânsito. Fomos de metrô. Eu fui contraindo de Santana até o Paraíso. E lá, com cardiotocografia, ultra, percebemos que tinha amenizado.
Cogitei retirar a circlagem lá e a plantonista disse que era aconselhável, que alguns plantonistas faziam parto normal, que eu dependeria da minha sorte.
Marquei para retirar a circlagem, achei que ela nasceria naquele exato momento, pois estava com 40 semanas e nenhum sinal.
Retirei. Nada de Larissa. Fui andando na Avenida Paulista meio que de perna aberta, sem acostumar com peso da barriga, com andar, achando que ela sairia sem eu sentir.
Plantonista me obrigou a ficar indo todo dia na maternidade. Pedi para descolar membranas. Enfiou um negócio que parecia um sabre de luz para verificar aspecto do líquido. Estava tudo bem mas ainda assim ele quis agendar a indução.
Dia 15 de outubro de 2011. Eu estava cansada. Eu não era obrigada a comparecer, mas meu médico tinha me abandonado, passei de 40 semanas e casa de parto não me aceitaria. Aliás, me rejeitaram bem antes porque disseram que nunca receberam mãe pós-circlagem.
Eu fui. Fomos, no carro da doula.
8 horas da manhã e já estávamos no hospital. E passa pela internação, e passa pelo pronto atendimento e faz exames e na ultra é constatado o seguinte: bora pra cesárea porque se forçarmos um parto normal ela pode não resistir.
Mas estava estranho, assim que cheguei brigaram porque eu comi um salgado. Se era indução, na minha cabeça não entrava a dieta zero.
Na tal ultra, deu centralização fetal. A tradução disso é que Larissa não estaria recebendo nada mais daquela placenta.
Realmente a cesárea pareceu um evento de urgência, pois eu fui pra centro cirúrgico mesmo sem estar em jejum! O obstetra era a cara do Jude Law e ficou a todo momento dizendo que eu poderia ter normal depois, pra não ficar triste por não ser como eu sonhei.
Centro cirúrgico gelado, medo enorme de rolar daquela mesinha estreita com aquele barrigão. “Eu tô sentindo você mexer na sonda pelo amor de Deus eu vou sentir me cortando!”. Eu sou histérica às vezes.
Cheiro de galinha queimada. E puxa e remexe. E deixa a doula entrar. Ela entrou, André não.
Ouço um choro e o tempo para. Saiu um bebê de dentro de mim, com vida!
Um bebê com todos os dedinhos, com a boca certinha e quanta boca! E quanto olho! Parece uma corujinha!!!
Nasceu, 12:19, com 2.760 kg e 48 cm.
E fico 3 horas na recuperação da anestesia. Fico numa maca isolada do mundo, cercada por cortinas. Cochilo. Acordo. O tempo não passa! Já sinto minhas pernas, não sinto enjoo nem nada mas ainda preciso esperar o quarto ser liberado.
Quase 3 horas depois…
Enfim, quarto!
E vem meu bebê sem um vestígio de parto, devem ter dado banho, pensei. De roupinha amarela que ficou imensa. E naquele encontro, tudo valeu a pena. A amamentação foi plena, desde o começo, era estranho, é muito estranho e dolorido diversas vezes, mas eu tive leite (tive nas 3 gestações) e finalmente pude amamentar! Não precisei tomar remédio pra secar meu leite!
Fomos para casa, a casa tinha cheiro de bebê. Eu não queria ficar mais naquela cama! Eu lavava as roupinhas dela na mão, eu andava, passeamos muito cedo…
Acho que pela gravidez ter sido tão difícil, tudo que veio depois foi fácil e eu fiz sorrindo.
Sono dela era ótimo, amamentação fluindo sempre bem, introdução alimentar foi linda.
Hoje, 5 anos depois, mesmo que esteja numa fase bem ousada de respostas e tudo mais, ainda afirmo que é muito fácil ser mãe dela. E eu espero melhorar para que possa aproveitar desses momentos mágicos por muitos e muitos anos.

*Não foi fácil. Nada na minha vida foi fácil e eu nem queria isso, acho que tudo fez eu ser quem eu sou hoje, com os valores que tenho. De alguma forma tudo isso contribuiu para a minha evolução.
Eu tenho até hoje a cicatriz dessa cesárea, tive hipertrofia nela, por muito tempo senti vergonha. E hoje eu vejo que a vergonha não era do meu corpo marcado, mas por não ter lutado para um nascimento respeitoso para a minha filha.
Sinto como se tivesse falhado.
Mas ao mesmo tempo vejo que fui até meu limite, que eu não aguentava mais precisar lutar, ter sempre uma surpresa a cada exame. Foram 27 ultras nessa gestação.
Eu tentei enviar meus relatos para um grupo jurídico na humanização que orientava mulheres para processarem médicos como esse que tive, um que precisei ver depois amigas passando e respondendo que “com ela estava tudo ok”. Eu quis processar a maternidade que tive a primeira perda, aquele médico. Eu quis meu cargo de volta na prefeitura no Rio, pois sinto que fui pressionada a tomar a decisão da exoneração. Nunca tive assistência. Mal tive assistência emocional, jurídica então…

**Um filho nascido não compensa a perda de outros dois. Não sei como esse processo se dá, mas há uma área no coração para cada uma delas.
Ser mãe da Larissa é mágico, ela veio pra mudar a minha vida, pra dar sentido, embora eu ache um peso muito grande ela saber disso algum dia. Ela é, ela faz, eu a amo!
E eu amo minhas 3 filhas e tudo que pude aprender com a temporada que tive com cada uma nessa vida. Sou muito grata a isso.

[Filha 3] Princesa Ariel

Em 12.03.2017   Arquivado em Terapiando

É um pouco confuso eu ir da primeira para a terceira, mas se fez necessário pelo meu estado. Para encerrar esses relatos com um sorriso no rosto.
O ano é 2013, o mês é novembro. O evento é o casamento do nosso compadre.
Adivinhem quem engravidou sem planejar de novo? Bingo!
Ou loteria, pois é retroversão uterina que diziam ser difícil de engravidar, é contraceptivo de n formas sem esquecer… mas aconteceu. De novo. Terceira vez. Música no Fantástico!
Em dezembro, eu me peguei com sintomas de gravidez que dessa vez eu mesma percebi e me vi mijando num teste de farmácia num shopping. Com meu melhor amigo do lado de fora esperando ansioso. E me vi fazendo o exame de sangue em sigilo total no trabalho, implorando pra menina do laboratório não fazer festa na maternidade que eu trabalhava.
Eu tirei foto do teste positivo e mandei pro André e pra algumas amigas. Porque aqui o que não teve foi esse negócio de sutileza e fazer surpresa pra pai não.
Não lembro que dia foi, que estranho…
Eu morava com Larissa no Rio de Janeiro, era supervisora de uma maternidade da prefeitura, a Leila Diniz. Estava muito bem nessa função, por sinal.
Mas adivinhem quem teve hiperêmese gravídica e não conseguia lidar com o cheiro do hospital sem vomitar? A Enfermeira que precisou de licença desde o começo!
Já procurei uma médica humanizada. Nada tipo humanizada, era humana mesmo, era no particular porque eu descobri que plano de saúde não presta.
Meu cunhado me levava nas consultas em Copacabana. Era sempre um dia muito bom! Andávamos por lá, comíamos, eu tomava frappuccino de morango na Starbucks.
Logo agendamos a circlagem para fevereiro. Circlagem é uma costura no colo uterino para ajudar a manter a gestação principalmente em pacientes com incompetência istmo cervical.
A anestesista disse que faria pouca analgesia, para passar menos possível para a bebê, então eu sentiria alguns desconfortos. Eu senti foi a porra toda.
Minha irmã mais velha estava lá, meu cunhado também. E ajudaram esse dia longo a passar, pois eu iria embora sem internar, mas precisava voltar a sentir minhas pernas e fazer xixi. Xixi feito, partiu apartamento!
Começou o processo de ficar deitada noite e dia, minha mãe subindo para pegar Larissa e levar para o apartamento dela. Cuidar de papai que estava debilitado depois de um AVC, passar na casa da minha avó em estágio avançado de Alzheimer. Pois é, ela revezava os cuidados entre nós três.
E eu sentia em mim, como se nossas histórias estivessem interligadas, não sei explicar. Achava que o que aconteceria a um, aconteceria aos outros.
Março chegou, foi muito ruim por questões pessoais com André e passou. Ou não.
Veio abril, veio 21 de abril e nossa viagem de vinda para São Paulo, de mudança!
Alugamos casa linda, com quarto para as duas crianças – eu não queria saber o sexo do bebê – com banheira na suíte para o parto… Foi tudo planejado e muito sonhado.
Fui na consulta com a Parteira, nesse meio humanizado todos se conhecem, então ela conhecia a médica do RJ e amava. Peguei contato de uma obstetra só caso eu quisesse mais uma opção, começar a planejar plano B para o futuro parto domiciliar.
Mas aí chegou o dia 30 de abril. E eu, com essa mania infeliz de olhar o xixi e as partes íntimas antes de dormir, notei um corrimento estranho. Não era o normal da circlagem, achei que era o tampão mucoso. Nunca tinha visto ele!
Então eu me programei para ir no dia seguinte a uma maternidade. Acho que fui sozinha, não lembro muito bem.
Sei que foi cansativo, eu estava sozinha lá dentro aguardando exames. André ficou comigo até o horário de buscar Larissa na escola, lembrei.
Fui pra fila da ultra e estava quase indo embora quando senti que precisava estar ali, que precisava ficar. Cheguei com dia claro e já eram umas 19h e eu a última paciente.
Estava deitada, escondendo o rosto porque não queria saber o sexo do bebê, pensando na volta pra casa, quando o médico começa a perguntar se tenho diabetes, se tenho alguém me esperando, que eu ficaria internada para observação porque ele estava enxergando algo e gostaria de investigar melhor.
Polidramnia severa. Eu estava com tamanho de uma gravidez a termo gemelar e naquele momento tinha apenas 29 / 30 semanas.
Também não lembro e isso também está estranho.
Minha filha estava com hidropsia fetal e eu recomendo que você não faça essa busca no Google pra saber do que se trata. Eu fiz e não dormi aquela noite, novamente sozinha num quarto de hospital.
Larissa em idade escolar.
Minha mãe precisou vir às pressas pra São Paulo.
“Mas a circlagem tá inteira”, eu falava. Era estranho o problema não ser criança saindo e sim algo que ninguém fazia ideia, que precisei passar por vários exames!
Por fim, parvovirose o que causou. Como peguei? Se eu não saía de casa, acredito que no avião indo para São Paulo.
Passei o dia das mães internada. Larissa levou presente da escola. Ela não entendia porque eu estava ali, deitava ao meu lado na visita. Aliás, eu só recebi mais uma visita, de uma amiga de Araraquara que estava em SP e foi me ver.
Ao longo da internação, o líquido amniótico foi aumentando e uma amniocentese foi indicada, a retirada desse volume parcial pela barriga. Furando a barriga. Uma agulha imensa indo dentro do útero com todo cuidado do mundo para não romper a bolsa e puxando parte dos 6 litros de líquido. Retiraram 2 litros. Em seringas de 20 ml revezando. Dois médicos incríveis e especialistas em medicina fetal na UNIFESP. Um foi professor da minha obstetra. Eu estava entre pessoas incríveis, competentes e humanas! Que entendiam porque eu chorava por não poder beber Nescau sempre e a Nutricionista me forçar a beber chá. Eu não suporto chá, quanto mais grávida.
Então, voltando.
O procedimento foi a tarde. E vale lembrar que na véspera, entrou um homem sozinho no meu quarto a noite, para dizer que se minha filha nascesse durante o procedimento, o plano não poderia cobrir a internação. E eu fiz um escândalo no hospital por permitir a entrada e por ele abordar um assunto desse comigo na véspera de um procedimento importante.
Voltando de novo:
Na noite do dia da amniocentese, que eu também não lembro e tá muito estranho eu não ter esses dados na cabeça, minha bolsa rompeu.
Ouvi o famoso “ploc” e me vi inundada, com meu cabelo boiando numa água de cheiro forte. As pernas ficavam pro alto, então foi tudo pra cabeça.
A partir desse momento, eu zerei líquido. Dava zero na ultra e agora a Ariel, pois eu vi sem querer que era uma menina, estava até bem, na medida do possível.
A obstetra disse que se não tivesse acontecido a amniocentese pode ser que não houvesse bolsa rota, mas se houvesse bolsa rota com todo aquele líquido, poderia haver extravasamento uterino por causa da pressão na saída.
E em algum momento da internação fui orientada para, caso sentisse isso acontecendo, ficasse em 4 apoios na cama senão eu poderia morrer.
Fui para o centro cirúrgico e a circlagem foi retirada.
Na manhã do dia 12 de maio, e agora me dei conta que se dia das mães foi dia 10 e estava tudo ok, dia 11 foi a amniocentese, eu acordei me sentindo diferente e com começo de contração. Comuniquei enfermeira. Ela duvidou, disse que era impressão minha.
Médico da visita passou e confirmou que eu estava entrando em trabalho de parto.
Minha obstetra logo chegou ao hospital e André também.
Fui encaminhada a sala de parto humanizado, com banheira, bola, luz, cama especial, privacidade.
Pedi um quarteirão do Mc Donald’s pro André. Eu estava em TP louca de fome!
Rádio ligado na 89.5.
E fica na bola, e vai pra banheira, e não quer saber de água. E vai pra ocitocina.
E implora a anestesia.
E implora cesárea!
Anestesista veio, disse que eu teria cefaleia pós-raqui porque me mexi com contração na hora e senti uma pressão na cabeça até!
Depois da anestesia, foi maravilhoso!
Eu sentia a vontade de fazer força e eu fazia força, sem sentir dor!
Fiquei debruçada na parte do travesseiro da cama, que levantava e eu podia abraçar. Fiz umas 3 forças e Ariel nasceu.
Não teve choro dela.
Teve nosso.
Em algum momento do trabalho de parto, a pediatra nos explicou que, com as condições que ela estava, permitir cuidados invasivos ao nascer daria alguns minutos ou horas e de sofrimento a ela. Que era para falarmos se queríamos ou não. E eu não quis. Eu entendia o que estava acontecendo, eu sabia o comprometimento dos órgãos dela, eu não queria minha filha sofrendo. Mas eu vejo o peso dessa decisão tomada por mim, nesse momento, o quanto essa resposta já me assombrou.
A pediatra levou ela para os cuidados, trouxe já limpinha pros meus braços.
A obstetra deixou eu e André com ela para nos despedirmos. Ela era igual a Larissa!
No rádio, na 89.5, tocava Love of my life. E eu fui cantando pra ela, até que ela parou de respirar.
E eu acho que também parei nesse momento.
“Bring it back, bring it back.
Don’t take it away from me.
Because you don’t know
What it means to me”

*E tive a tal da cefaleia tão forte que precisei realizar blood patch, que é a retirada do próprio sangue e injetá-lo na coluna para parar o vazamento de líquor.
** Ela nasceu dia 12, meu aniversário dia 14
*** Ela foi cremada e nós colocamos suas cinzas numa cachoeira em Penedo.
**** Como eu sentia, que estávamos ligados, minha avó faleceu dia 02 de junho e meu pai dia 09 de junho.

[*] Eu precisava renovar a minha licença sempre, na Prefeitura do Rio. Quando eu perdi a Ariel, fui comunicada que precisaria voltar ao trabalho em 3 dias. Porque a licença maternidade é para quem teve filho, para cuidar do filho. Morte é licença de 3 dias. Nome da licença é NOJO por sinal.
E eu não voltei, eu não tinha condições de voltar, não tinha condições de entrar numa maternidade, de supervisionar uma UTI Neonatal. Não tinha!
Consegui mais um período de licença, agora atestada por Psiquiatra particular, que disse que eu era novinha, era só tomar aquele tarja pretazinho ali que ficaria tudo em paz. Na perícia, ao levar os exames, eu era atendida até por Ortopedista, para avaliarem minha situação. Super a ver, né?
Ficou insustentável. Não quiseram mais me dar licença, comecei a faltar. Fui comunicada que 30 dias de falta inativa uma pessoa a vida inteira, pois ela entra em processo administrativo e nunca mais pode prestar Concurso Público.
Assinei termo de exoneração daqui de São Paulo, minha mãe entrou com o processo no Rio, pois nem viajar eu aguentava mais, a essa altura eu já tinha perdido minha filha, minha avó, meu pai e agora meu emprego.
2014 ainda dá sinais muito intensos em mim. Marcou.

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