[Filha 1] Princesa Yasmin

Em 12.03.2017   Arquivado em Terapiando

Eu tenho 3 filhas.
A primeira se chamava Yasmin, mas até o nascimento creio que eu chamaria de Jasmine, a princesa.
Ano de 2009, o dia era 22 de março. Noite.
Alguns testes de farmácia negativos. Eles foram feitos porque o André me percebeu diferente. Umas 22h da noite, de chuva, senti dores estranhas e achei que estava com crise de apendicite. Fui para a emergência de um hospital em São Paulo e lá descobri numa ultrassonografia que o apêndice tinha coração. Sim, eu estava grávida!
Foi um susto, mas um feliz susto. Éramos muito felizes, um casal daqueles que as pessoas diziam sentir inveja branca.
Rapidamente (mesmo, 31 de março) iniciei o pré-natal, procurando profissional que fizesse parto normal pelo plano de saúde. Eu ainda era ingênua.
Para minha família no Rio de Janeiro eu só comentei quando fui no mês seguinte, em abril no dia seguinte do aniversário da minha mãe. Levei a ultra e entreguei a ela na cozinha. Minha avó estava junto e eu ainda sinto aqueles abraços.
Voltei para São Paulo. Eu já disse que eu era o ser mais feliz desse mundo?
Eu era.
Mesmo super enjoada e com várias idas ao hospital para conter um pouco essas 12 semanas iniciais.
Dia 13 de maio, véspera do meu aniversário, descobri que estava grávida de uma menininha!
Procurei mais médicos do plano, pois a minha não queria conversar sobre o parto.
Fomos à feira da Gestante e comprei roupinhas que me lembro até hoje.
Minha irmã do meio também estava grávida, o que tornou esse momento muito único para a família.
Participei de uma gincana de mães no Orkut, o prêmio era um sling e na época eu não fazia ideia do que era isso, mas eu quis passar meu tempo brincando e conhecendo outras mães (Karol, Mel e Luana).
Eu me dediquei tanto, que a equipe roxa, a minha, ganhou!
Escolhi um sling preto, com detalhe floral branco. Era o de argola.
Passada a gincana, comecei a planejar meu chá de bebê no Rio. Eu era recém-formada (aulas acabaram e dia 05 de dezembro eu já estava morando em SP) e mais uma amiga da faculdade também estava grávida. Então eu iria encontrar minhas amigas e faria meu chá de bebê.
Foi tudo planejado. Eu escolhi lilás e verde água, formato da letra com fonte da Disney. Havia uma cegonha muito fofa no convite que eu mesma fiz. E imprimi. E entreguei. E eu ainda lembro daquela cegonha, da textura daquele convite.
Viajei sozinha (24 de junho), teria os preparativos do chá e só depois André iria por causa do trabalho. Era pra ele chegar dia 08 de julho. Ele chegou dia 07.
Mas não foi só ele que antecipou, meu parto também. Ou a história.
No dia 26 de junho, noite, eu estava me preparando para dormir após um dia muito feliz que encontrei minhas amigas da faculdade, aquelas que citei anteriormente. Fui fazer xixi, como toda grávida, porém, como as mais cismadas, eu sempre conferia como estavam as coisas embaixo, visualmente falando. Dessa vez eu olhei, eu gelei. Porque eu vi a bolsa da bebê saindo pelo canal vaginal, eu me dei conta que minha filha estava saindo e eu sequer estava sentindo!
Fui para o meu quarto de solteira que ainda estava como deixei. Deitei na cama, levantei as pernas e chamei minha mãe.
Tentei explicar o que acontecia, mas com receio de assustá-la.
Ela chamou nossa prima que me levou de carro a um hospital particular no bairro vizinho. Eu fui deitada no banco de trás com as pernas pra cima.
Chegando no hospital, fui examinada da pior forma possível, um toque super dolorido por um médico que simplesmente disse: você está abortando. E eu em choque, perguntava o que poderia ser feito, não entendia o que estava acontecendo, e ele só dizia que tinha que esperar o feto sair.
Internei.
Sempre se referiam como feto. Aborto. Estamos esperando o dia dela sair.
Eu estava com a minha filha saindo perna abaixo, eu não poderia simplesmente procurar outro local.
Passei a noite sozinha. Naquele momento, a pior noite da minha vida.
Nos demais dias recebi visita da minha mãe todos os dias, das minhas irmãs na medida do possível, pois uma estava grávida e a outra tinha um filho para cuidar – e também estava grávida mas eu ainda não sabia rs
Recebi minha avó. Ela me abraçou, disse que eu era muito forte. Ou ela disse isso pelo telefone? Sei que ela levou escondida uma fatia da pizza da parmê pra mim. Eu estava internada, mas ainda era uma grávida com desejos e estava doida para comer a pizza de calabresa com catupiry. Meu pai chorou ao telefone.
Recebi telefonema daquelas amigas que fiz na gincana do Orkut. Toda a comunidade de mães do mesmo mês se solidarizou e rezou todos os dias por nós.
Na manhã do dia 06 de julho, o dia começou diferente e parte minha sabia que ele jamais seria igual.
Minha mãe havia deixado frutas na geladeira e, um técnico de enfermagem muito falante entrou no meu quarto. Era um grande amigo do segundo grau. Ele me viu pelada. Fizemos piada disso. Ele cortou cada fruta e improvisou uma salada pra mim. E eu lembro desse gesto com muito carinho.
Umas 11 horas da manhã, percebi que havia algo saindo de mim. Eu usava fralda, não pude levantar um dia sequer nessa internação. Ele conferiu e, assustado, disse que parecia um bebê. Mas perguntou se eu estava em comecinho de gestação. Era só coágulo, muito sangue que saiu mesmo.
A partir daí, eu fui colocada no soro com ocitocina, pois segundo o médico, se ela ficasse mais tempo dentro de mim, morreriam as duas.
Lembro de ver a programação da Globo.
Lembro de ligar pro André e me desculpar por estar perdendo a nossa filha.
Lembro que o trabalho de parto avançou e eu já me vejo segurando minhas próprias pernas que insistiam em fechar com dor com as mãos daquele homem dentro de mim, puxando a minha filha, lembro de estar sozinha com ele, de gritar pro meu amigo não deixar minha mãe entrar no quarto, pois ela jamais esqueceria aquela cena.
Lembro de implorar pra ele ir rápido e tirar ela de mim, pois eu não aguentava mais de tanta dor.
Lembro da dor passar.
Lembro de chorar baixo, numa cama toda ensanguentada.
Lembro das pessoas me limpando e chorando junto. Lembro que não vi mais meu amigo e depois eu soube que foi forte demais pra ele aquilo tudo.
Lembro da minha mãe dizer que queria trocar de lugar comigo.
Lembro de não avisarmos minha irmã que estava grávida de 34 semanas para não desesperá-la. Lembro de recebermos ligação a noite dizendo que ela estava indo pro hospital, com sangramento, acho, e depois que minha sobrinha nasceu. Não naquele dia 06, no dia 07, numa data só dela e com a alegria e renovação que ela traria.
No dia 07 de julho André chegou. Meu amigo veio me ver. Uma amiga, a que era minha melhor amiga no segundo grau, também foi. Outras pessoas mandaram mensagens de apoio.
Fui comunicada que não haveria enterro da minha filha. Pelo peso, ele declarou menos de 500g. Eu tinha 24 semanas de gestação. A imagem dela sendo considerada restos orgânicos e sendo incinerada como um nada, não saiu da minha cabeça por muito tempo.
Eu não vi minha filha. Eu não pude me despedir dela. E a falta desse desfecho dói muito.
Ainda dói.
A maioria das pessoas citadas se afastou. Eu me afastei.
Eu tinha vergonha de ter perdido minha filha. Nunca mais ouvi falar das meninas da gingana, ou das meninas do grupo que torceram por nós. Eu senti muita vergonha.
Meus amigos de segundo grau, ele eu ainda vejo aqui no Facebook, a que era minha melhor amiga parou de falar comigo anos depois por besteira.
E eu nunca mais fui a mesma.
E eu acho que nunca serei como antes, mas aprendi a levar a vida com um sorriso no rosto para que ninguém percebesse esse lado, que agora está exposto aqui.
E foi a primeira vez que ouvi que era incompetente.
Que eu tinha incompetência istmo-cervical.

  • Thais

    Em 12.03.2017

    Miga eu tenho um orgulho da pessoa maravilhosa que vc é, guerreira, amável, amiga, generosa e hoje principalmente quero te dedicar toda minha admiração. Parabéns mãe guerreira de 3 meninas. Te amo muitooooo. Obrigado por me permitir fazer parte de um pedacinho dá sua vida.

  • Ma

    Em 12.03.2017

    Palavras não traduzem a dor q estou sentindo com vc.
    Por vc!
    Vc fez bem em falar ou melhor, escrever. Não sei se vc sabe, perdi um bebê com 12 semanas de gestação.
    Imagino bem sua dor, que um dia tb foi minha.
    Amo vc!
    Estarei sempre aqui, pra vc!

  • Gabi

    Em 12.03.2017

    ô miga, entendo vc perfeitamente!
    E incrivelmente as coisas aconteceram no mesmo ano para nós duas..
    🙁
    E como sua avó disse: Você é forte! muitoo forte!
    Amo vc