[Filha 2] Princesa Larissa

Em 12.03.2017   Arquivado em Terapiando

Antes de tudo, preciso contar algo que as pessoas não sabem. Assim que Yasmin se foi em 2009, meu relacionamento com André ficou esquisito. Eu sofrendo o mundo, ele super prático sem entender porque eu ainda estava sofrendo 1 mês depois. Isso foi se arrastando até maio de 2010, quando no primeiro dia das mães sem filha, eu só chorava. Brigamos, voltei pro Rio de Janeiro naquele dia, meio desesperada, no impulso.
Fiquei no Rio até agosto de 2010, não era o momento de voltar pra casa dos pais, não deu muito certo. Voltei pra São Paulo, mas estávamos separados em relacionamento.
Combinamos que eu trabalharia, estudaria, que iria me estabilizar em SP e enquanto isso moraríamos juntos.
Fomos ao Rio de Janeiro, férias dele, feriado de São Sebastião, dia 20 de janeiro. Pois é. Mesmo separados, rolou.
Ansiosa para iniciar a Pós-Graduação, o curso no Centro. Passou dia 04 de fevereiro e nem senti falta da menstruação que é bem certinha. Veio o fim de semana e uns olhares suspeitos do André. Bastou eu comer kani com amora pra ele afirmar: você está grávida. Achei a suspeita engraçada, afinal não estávamos muito próximos nos últimos meses.
Bem, chegou segunda-feira, dia 07 de fevereiro, e a ideia ficou na minha cabeça. Mesmo sem acreditar fiquei ansiosa, nervosa, medrosa. Pedi pra ele comprar um teste de gravidez e assim que ele chegou do trabalho, por volta das 19 horas, decidi fazer. Indicam que seja o primeiro xixi da manhã, pelo acúmulo de Hcg na urina, mas fiz mesmo assim. Saí do banheiro sem coragem de olhar o resultado, entreguei a ele e fiquei sentada, gelada, esperando o que viria. Acho que toda mulher tem medo dos dois resultados…
– “Positivo..”
– “Oi?!”
– “Positivo, duas listras, você está grávida…”
Nesse momento o ser humano XY vira pro computador e volta a fazer o que estava antes. Nesse momento o ser humano XX encosta na parede pra ter certeza que não vai cair e chora. Chora de soluçar! De medo, de alegria, de tristeza, de alegria novamente e de mais medo ainda.
Não lembro o que aconteceu depois mas tenho certeza que não houve comemoração. Sabíamos o que viria, todo repouso, nós afastados um do outro. Uma gravidez nada planejada, pelo menos não por nós dois.

André foi para o Workshop da empresa e eu aproveitei para contar para amigos e família sobre a gravidez, pelo msn. Também iniciei ali, naquele 09 de fevereiro, o meu blog que me acompanhou durante toda a gestação.
Dia 10 de fevereiro fui ao hospital, pois queria saber como estava meu bebê e chegar na primeira consulta de pré-natal com uma ultra. Foi a maior besteira que já fiz! Pouco tempo ainda, 5 semanas, então não apareceu nada e meu HCG estava baixo. Primeira suspeita: aborto ou gravidez ectópica. Saí péssima de lá mas decidi confiar e abstrair.
Dia 14 de fevereiro foi a primeira consulta de pré-natal e após entregar os exames o que ouvi foi: “vá ao hospital e me liga de lá para marcarmos dia pra retirar sua trompa”. Fui ao hospital chorando muito pelo caminho, conversando com minha mãe pelo telefone. Encontrei o André depois. Resultado da ultra: Saco Gestacional medindo 7 mm. Hcg já alto. E dessa vez quem veio me assustar foi o plantonista: “volte aqui para repetirmos a ultra, pois já era para ter aparecido o embrião, ou você abortou ou não tem embrião”.
Enquanto esperava o tempo passar, voltei no consultório para buscar pedidos de exame de rotina de pré-natal, coisa que insisti pra fazer.
Dia 24 de fevereiro tive consulta com outro obstetra, um que procurei indicação em fóruns, pois era tido que era humanizado. Realmente, até determinado momento ele foi.
Naquele início ele me acalmou, fez ultra no consultório e eu ouvi pela primeira vez o batimento cardíaco do meu bebê. Ele disse que acompanharia o tamanho do colo uterino para avaliar se haveria necessidade de circlagem, pois era segunda gestação e talvez não houvesse o mesmo problema.
Em março, foi carnaval e fomos pro Rio de Janeiro. Sobrinhos fantasiados, festa! Sabia que não poderia viajar nem tão cedo de novo então aproveitei bem esse comecinho.
Em abril, fiz a ultra morfológica e deu 70% de chance de ter menino e parte minha queria uma menina. Eu chorei com isso, não queria ter menino não! E preciso dizer que eu tenho pra mim que o bebê ficou bem emputecido comigo e se recusou a mostrar o sexo até as 24 semanas.
Tive alguns sangramentos esse mês, vivi no hospital, foram muitas ultras medindo colo. Num determinado dia, achei que estava ou parindo ou morrendo, com muita dor. Passei dia no hospital! Menti que estava melhor pra receber alta, não tinha dado nada em exame algum. Saímos de lá tarde da noite, bebi uma coca no bar da esquina e arrotei. Arrotei muito! E melhorei.

Maio, chegou meu mês favorito! Ele começou um pouco triste, pois no dia 04 de maio ao fazer a ultra de colo uterino, que diminuiu, a médica disse que só faria enxoval quando chegasse no nono mês, dando a entender que eu não teria muita chance de chegar. Foi bem duro ouvir isso, fiquei mal, senti medo, vergonha e muita coisa ruim.
Foi dia das mães, foi meu aniversário um pouco chateada porque não ganhei parabéns do André. Foi quando ele sentiu bebê mexer pela primeira vez.
Veio junho e lá estava eu passando por grandes emoções. Bebê super bem e agora temos a certeza que é uma menina!!! Só fiquei preocupada, pois a ultra de colo uterino mostrou que ele diminuiu muito e começava a afunilar, abrir por dentro. Marcamos consulta com o Obstetra pro dia seguinte. Ah, e antes de dormir escolhemos o nome da bebê: vai se chamar Larissa!
Fui na consulta, circlagem agendada para semana seguinte, dia 09. Eu estava apavorada!
Passei dia 10 inteiro no hospital, demoraram a tirar minha sonda, estava triste por ficar tanto tempo sozinha. O sangue que vi na hora do banho me deu muito medo, fiquei assustada mas não tinha com quem conversar, desabafar.
A alta da circlagem só veio dia 11. Muito diferente da terceira gestação que fui embora no mesmo dia e sem esses transtornos.

Dia 22 de junho seria dia de consulta com Obstetra mas ele cancelou, pois foi fazer um parto. Como eu estava sentindo muita dor e pressão na direção dos pontos da cerclagem, decidi ir ao hospital. Ainda bem que eu fui, pois estava com infecção urinária e na ultra vimos que o colo abriu todo, só os pontos estavam segurando. Iniciou assim meu repouso absoluto e a parte mais difícil de toda a gravidez, com mais incertezas, mais desconforto.
Ainda em junho, minha cunhada foi nos visitar e fez cuscuz doce pra mim. Eu estava com desejo!!!
Final de junho chegou meu sapatinho vermelho de um amigo secreto que fizemos entre as buchudas. Sapatinho vermelho representa saúde e foi muito bom esse momento.
Julho foi um saco. Gripada, cansada de ficar só deitada, tinha vontade de andar, comprar as coisas da minha filha como toda grávida. Só podia sair para consulta e era todo um processo. Banho acontecia em menos de 5 minutos, em dias espaçados e sentada numa cadeira. Preciso dizer que eu passava meus dias sozinha com Larissa na barriga, pois André trabalhava. Comia algumas frutas deixadas ao lado da cama, alguns lanches e só jantava quando ele chegava.
Fim do mês ele lavou as roupinhas de bebê, dei mil instruções. Sentir aquele cheiro invadindo a casa me renovou. Cortar todas as etiquetas mesmo deitada, fez eu me sentir participando de algo. Meu enxoval foi todo de presente de família e amigos virtuais. TODO!

Em agosto tomei injeção de corticóide. Troço doído da porra! Começou uma tortura psicológica com baixo ganho de peso da Larissa. Em nenhum momento foi associado ao meu estado, foi logo visto como algo anormal e inesperado. Com 36 semanas o obstetra humanizadinho começou a falar que poderia fazer a cesárea naquele momento para me poupar emocionalmente disso tudo. E condenou demais minha opção pela casa de parto.
Meu único problema era um colo uterino que não segurava um bebê, não teria problema algum parir! Mas ele fez eu pensar que tinha.
Setembro foi… foi inteiro pensando que ela nasceria a qualquer espirro.
Com 37 semanas, fui ao consultório do humanizadinho da estrela para pedir que ele retirasse a circlagem, pois eu não teria dinheiro para pagar o parto com ele, estávamos muito fodidos financeiramente. E ele se recusou. Disse que se retirasse a circlagem e a bebê nascesse, ele sairia no prejuízo.
O toque que ele deu foi tão bruto, mas tão bruto, que comecei a contrair. de 3 em 3 minutos. Não poderíamos ir de táxi para a maternidade, pois estava em horário insuportável de trânsito. Fomos de metrô. Eu fui contraindo de Santana até o Paraíso. E lá, com cardiotocografia, ultra, percebemos que tinha amenizado.
Cogitei retirar a circlagem lá e a plantonista disse que era aconselhável, que alguns plantonistas faziam parto normal, que eu dependeria da minha sorte.
Marquei para retirar a circlagem, achei que ela nasceria naquele exato momento, pois estava com 40 semanas e nenhum sinal.
Retirei. Nada de Larissa. Fui andando na Avenida Paulista meio que de perna aberta, sem acostumar com peso da barriga, com andar, achando que ela sairia sem eu sentir.
Plantonista me obrigou a ficar indo todo dia na maternidade. Pedi para descolar membranas. Enfiou um negócio que parecia um sabre de luz para verificar aspecto do líquido. Estava tudo bem mas ainda assim ele quis agendar a indução.
Dia 15 de outubro de 2011. Eu estava cansada. Eu não era obrigada a comparecer, mas meu médico tinha me abandonado, passei de 40 semanas e casa de parto não me aceitaria. Aliás, me rejeitaram bem antes porque disseram que nunca receberam mãe pós-circlagem.
Eu fui. Fomos, no carro da doula.
8 horas da manhã e já estávamos no hospital. E passa pela internação, e passa pelo pronto atendimento e faz exames e na ultra é constatado o seguinte: bora pra cesárea porque se forçarmos um parto normal ela pode não resistir.
Mas estava estranho, assim que cheguei brigaram porque eu comi um salgado. Se era indução, na minha cabeça não entrava a dieta zero.
Na tal ultra, deu centralização fetal. A tradução disso é que Larissa não estaria recebendo nada mais daquela placenta.
Realmente a cesárea pareceu um evento de urgência, pois eu fui pra centro cirúrgico mesmo sem estar em jejum! O obstetra era a cara do Jude Law e ficou a todo momento dizendo que eu poderia ter normal depois, pra não ficar triste por não ser como eu sonhei.
Centro cirúrgico gelado, medo enorme de rolar daquela mesinha estreita com aquele barrigão. “Eu tô sentindo você mexer na sonda pelo amor de Deus eu vou sentir me cortando!”. Eu sou histérica às vezes.
Cheiro de galinha queimada. E puxa e remexe. E deixa a doula entrar. Ela entrou, André não.
Ouço um choro e o tempo para. Saiu um bebê de dentro de mim, com vida!
Um bebê com todos os dedinhos, com a boca certinha e quanta boca! E quanto olho! Parece uma corujinha!!!
Nasceu, 12:19, com 2.760 kg e 48 cm.
E fico 3 horas na recuperação da anestesia. Fico numa maca isolada do mundo, cercada por cortinas. Cochilo. Acordo. O tempo não passa! Já sinto minhas pernas, não sinto enjoo nem nada mas ainda preciso esperar o quarto ser liberado.
Quase 3 horas depois…
Enfim, quarto!
E vem meu bebê sem um vestígio de parto, devem ter dado banho, pensei. De roupinha amarela que ficou imensa. E naquele encontro, tudo valeu a pena. A amamentação foi plena, desde o começo, era estranho, é muito estranho e dolorido diversas vezes, mas eu tive leite (tive nas 3 gestações) e finalmente pude amamentar! Não precisei tomar remédio pra secar meu leite!
Fomos para casa, a casa tinha cheiro de bebê. Eu não queria ficar mais naquela cama! Eu lavava as roupinhas dela na mão, eu andava, passeamos muito cedo…
Acho que pela gravidez ter sido tão difícil, tudo que veio depois foi fácil e eu fiz sorrindo.
Sono dela era ótimo, amamentação fluindo sempre bem, introdução alimentar foi linda.
Hoje, 5 anos depois, mesmo que esteja numa fase bem ousada de respostas e tudo mais, ainda afirmo que é muito fácil ser mãe dela. E eu espero melhorar para que possa aproveitar desses momentos mágicos por muitos e muitos anos.

*Não foi fácil. Nada na minha vida foi fácil e eu nem queria isso, acho que tudo fez eu ser quem eu sou hoje, com os valores que tenho. De alguma forma tudo isso contribuiu para a minha evolução.
Eu tenho até hoje a cicatriz dessa cesárea, tive hipertrofia nela, por muito tempo senti vergonha. E hoje eu vejo que a vergonha não era do meu corpo marcado, mas por não ter lutado para um nascimento respeitoso para a minha filha.
Sinto como se tivesse falhado.
Mas ao mesmo tempo vejo que fui até meu limite, que eu não aguentava mais precisar lutar, ter sempre uma surpresa a cada exame. Foram 27 ultras nessa gestação.
Eu tentei enviar meus relatos para um grupo jurídico na humanização que orientava mulheres para processarem médicos como esse que tive, um que precisei ver depois amigas passando e respondendo que “com ela estava tudo ok”. Eu quis processar a maternidade que tive a primeira perda, aquele médico. Eu quis meu cargo de volta na prefeitura no Rio, pois sinto que fui pressionada a tomar a decisão da exoneração. Nunca tive assistência. Mal tive assistência emocional, jurídica então…

**Um filho nascido não compensa a perda de outros dois. Não sei como esse processo se dá, mas há uma área no coração para cada uma delas.
Ser mãe da Larissa é mágico, ela veio pra mudar a minha vida, pra dar sentido, embora eu ache um peso muito grande ela saber disso algum dia. Ela é, ela faz, eu a amo!
E eu amo minhas 3 filhas e tudo que pude aprender com a temporada que tive com cada uma nessa vida. Sou muito grata a isso.

  • Ma

    Em 12.03.2017

    E enfim, vc pariu estas histórias.
    E vai ficar meio vazio, como a barriga dagente, qdo elas nascem.
    Mas será libertador!
    Concordo terapeuta!
    Emais uma vez, me orgylho de fazer parte destas histórias, mesmo quede longe, mesmo q não intensamente gostaria!

  • Jéssica Ribeiro

    Em 12.03.2017

    Admiração eterna e infinita!