[Filha 3] Princesa Ariel

Em 12.03.2017   Arquivado em Terapiando

É um pouco confuso eu ir da primeira para a terceira, mas se fez necessário pelo meu estado. Para encerrar esses relatos com um sorriso no rosto.
O ano é 2013, o mês é novembro. O evento é o casamento do nosso compadre.
Adivinhem quem engravidou sem planejar de novo? Bingo!
Ou loteria, pois é retroversão uterina que diziam ser difícil de engravidar, é contraceptivo de n formas sem esquecer… mas aconteceu. De novo. Terceira vez. Música no Fantástico!
Em dezembro, eu me peguei com sintomas de gravidez que dessa vez eu mesma percebi e me vi mijando num teste de farmácia num shopping. Com meu melhor amigo do lado de fora esperando ansioso. E me vi fazendo o exame de sangue em sigilo total no trabalho, implorando pra menina do laboratório não fazer festa na maternidade que eu trabalhava.
Eu tirei foto do teste positivo e mandei pro André e pra algumas amigas. Porque aqui o que não teve foi esse negócio de sutileza e fazer surpresa pra pai não.
Não lembro que dia foi, que estranho…
Eu morava com Larissa no Rio de Janeiro, era supervisora de uma maternidade da prefeitura, a Leila Diniz. Estava muito bem nessa função, por sinal.
Mas adivinhem quem teve hiperêmese gravídica e não conseguia lidar com o cheiro do hospital sem vomitar? A Enfermeira que precisou de licença desde o começo!
Já procurei uma médica humanizada. Nada tipo humanizada, era humana mesmo, era no particular porque eu descobri que plano de saúde não presta.
Meu cunhado me levava nas consultas em Copacabana. Era sempre um dia muito bom! Andávamos por lá, comíamos, eu tomava frappuccino de morango na Starbucks.
Logo agendamos a circlagem para fevereiro. Circlagem é uma costura no colo uterino para ajudar a manter a gestação principalmente em pacientes com incompetência istmo cervical.
A anestesista disse que faria pouca analgesia, para passar menos possível para a bebê, então eu sentiria alguns desconfortos. Eu senti foi a porra toda.
Minha irmã mais velha estava lá, meu cunhado também. E ajudaram esse dia longo a passar, pois eu iria embora sem internar, mas precisava voltar a sentir minhas pernas e fazer xixi. Xixi feito, partiu apartamento!
Começou o processo de ficar deitada noite e dia, minha mãe subindo para pegar Larissa e levar para o apartamento dela. Cuidar de papai que estava debilitado depois de um AVC, passar na casa da minha avó em estágio avançado de Alzheimer. Pois é, ela revezava os cuidados entre nós três.
E eu sentia em mim, como se nossas histórias estivessem interligadas, não sei explicar. Achava que o que aconteceria a um, aconteceria aos outros.
Março chegou, foi muito ruim por questões pessoais com André e passou. Ou não.
Veio abril, veio 21 de abril e nossa viagem de vinda para São Paulo, de mudança!
Alugamos casa linda, com quarto para as duas crianças – eu não queria saber o sexo do bebê – com banheira na suíte para o parto… Foi tudo planejado e muito sonhado.
Fui na consulta com a Parteira, nesse meio humanizado todos se conhecem, então ela conhecia a médica do RJ e amava. Peguei contato de uma obstetra só caso eu quisesse mais uma opção, começar a planejar plano B para o futuro parto domiciliar.
Mas aí chegou o dia 30 de abril. E eu, com essa mania infeliz de olhar o xixi e as partes íntimas antes de dormir, notei um corrimento estranho. Não era o normal da circlagem, achei que era o tampão mucoso. Nunca tinha visto ele!
Então eu me programei para ir no dia seguinte a uma maternidade. Acho que fui sozinha, não lembro muito bem.
Sei que foi cansativo, eu estava sozinha lá dentro aguardando exames. André ficou comigo até o horário de buscar Larissa na escola, lembrei.
Fui pra fila da ultra e estava quase indo embora quando senti que precisava estar ali, que precisava ficar. Cheguei com dia claro e já eram umas 19h e eu a última paciente.
Estava deitada, escondendo o rosto porque não queria saber o sexo do bebê, pensando na volta pra casa, quando o médico começa a perguntar se tenho diabetes, se tenho alguém me esperando, que eu ficaria internada para observação porque ele estava enxergando algo e gostaria de investigar melhor.
Polidramnia severa. Eu estava com tamanho de uma gravidez a termo gemelar e naquele momento tinha apenas 29 / 30 semanas.
Também não lembro e isso também está estranho.
Minha filha estava com hidropsia fetal e eu recomendo que você não faça essa busca no Google pra saber do que se trata. Eu fiz e não dormi aquela noite, novamente sozinha num quarto de hospital.
Larissa em idade escolar.
Minha mãe precisou vir às pressas pra São Paulo.
“Mas a circlagem tá inteira”, eu falava. Era estranho o problema não ser criança saindo e sim algo que ninguém fazia ideia, que precisei passar por vários exames!
Por fim, parvovirose o que causou. Como peguei? Se eu não saía de casa, acredito que no avião indo para São Paulo.
Passei o dia das mães internada. Larissa levou presente da escola. Ela não entendia porque eu estava ali, deitava ao meu lado na visita. Aliás, eu só recebi mais uma visita, de uma amiga de Araraquara que estava em SP e foi me ver.
Ao longo da internação, o líquido amniótico foi aumentando e uma amniocentese foi indicada, a retirada desse volume parcial pela barriga. Furando a barriga. Uma agulha imensa indo dentro do útero com todo cuidado do mundo para não romper a bolsa e puxando parte dos 6 litros de líquido. Retiraram 2 litros. Em seringas de 20 ml revezando. Dois médicos incríveis e especialistas em medicina fetal na UNIFESP. Um foi professor da minha obstetra. Eu estava entre pessoas incríveis, competentes e humanas! Que entendiam porque eu chorava por não poder beber Nescau sempre e a Nutricionista me forçar a beber chá. Eu não suporto chá, quanto mais grávida.
Então, voltando.
O procedimento foi a tarde. E vale lembrar que na véspera, entrou um homem sozinho no meu quarto a noite, para dizer que se minha filha nascesse durante o procedimento, o plano não poderia cobrir a internação. E eu fiz um escândalo no hospital por permitir a entrada e por ele abordar um assunto desse comigo na véspera de um procedimento importante.
Voltando de novo:
Na noite do dia da amniocentese, que eu também não lembro e tá muito estranho eu não ter esses dados na cabeça, minha bolsa rompeu.
Ouvi o famoso “ploc” e me vi inundada, com meu cabelo boiando numa água de cheiro forte. As pernas ficavam pro alto, então foi tudo pra cabeça.
A partir desse momento, eu zerei líquido. Dava zero na ultra e agora a Ariel, pois eu vi sem querer que era uma menina, estava até bem, na medida do possível.
A obstetra disse que se não tivesse acontecido a amniocentese pode ser que não houvesse bolsa rota, mas se houvesse bolsa rota com todo aquele líquido, poderia haver extravasamento uterino por causa da pressão na saída.
E em algum momento da internação fui orientada para, caso sentisse isso acontecendo, ficasse em 4 apoios na cama senão eu poderia morrer.
Fui para o centro cirúrgico e a circlagem foi retirada.
Na manhã do dia 12 de maio, e agora me dei conta que se dia das mães foi dia 10 e estava tudo ok, dia 11 foi a amniocentese, eu acordei me sentindo diferente e com começo de contração. Comuniquei enfermeira. Ela duvidou, disse que era impressão minha.
Médico da visita passou e confirmou que eu estava entrando em trabalho de parto.
Minha obstetra logo chegou ao hospital e André também.
Fui encaminhada a sala de parto humanizado, com banheira, bola, luz, cama especial, privacidade.
Pedi um quarteirão do Mc Donald’s pro André. Eu estava em TP louca de fome!
Rádio ligado na 89.5.
E fica na bola, e vai pra banheira, e não quer saber de água. E vai pra ocitocina.
E implora a anestesia.
E implora cesárea!
Anestesista veio, disse que eu teria cefaleia pós-raqui porque me mexi com contração na hora e senti uma pressão na cabeça até!
Depois da anestesia, foi maravilhoso!
Eu sentia a vontade de fazer força e eu fazia força, sem sentir dor!
Fiquei debruçada na parte do travesseiro da cama, que levantava e eu podia abraçar. Fiz umas 3 forças e Ariel nasceu.
Não teve choro dela.
Teve nosso.
Em algum momento do trabalho de parto, a pediatra nos explicou que, com as condições que ela estava, permitir cuidados invasivos ao nascer daria alguns minutos ou horas e de sofrimento a ela. Que era para falarmos se queríamos ou não. E eu não quis. Eu entendia o que estava acontecendo, eu sabia o comprometimento dos órgãos dela, eu não queria minha filha sofrendo. Mas eu vejo o peso dessa decisão tomada por mim, nesse momento, o quanto essa resposta já me assombrou.
A pediatra levou ela para os cuidados, trouxe já limpinha pros meus braços.
A obstetra deixou eu e André com ela para nos despedirmos. Ela era igual a Larissa!
No rádio, na 89.5, tocava Love of my life. E eu fui cantando pra ela, até que ela parou de respirar.
E eu acho que também parei nesse momento.
“Bring it back, bring it back.
Don’t take it away from me.
Because you don’t know
What it means to me”

*E tive a tal da cefaleia tão forte que precisei realizar blood patch, que é a retirada do próprio sangue e injetá-lo na coluna para parar o vazamento de líquor.
** Ela nasceu dia 12, meu aniversário dia 14
*** Ela foi cremada e nós colocamos suas cinzas numa cachoeira em Penedo.
**** Como eu sentia, que estávamos ligados, minha avó faleceu dia 02 de junho e meu pai dia 09 de junho.

[*] Eu precisava renovar a minha licença sempre, na Prefeitura do Rio. Quando eu perdi a Ariel, fui comunicada que precisaria voltar ao trabalho em 3 dias. Porque a licença maternidade é para quem teve filho, para cuidar do filho. Morte é licença de 3 dias. Nome da licença é NOJO por sinal.
E eu não voltei, eu não tinha condições de voltar, não tinha condições de entrar numa maternidade, de supervisionar uma UTI Neonatal. Não tinha!
Consegui mais um período de licença, agora atestada por Psiquiatra particular, que disse que eu era novinha, era só tomar aquele tarja pretazinho ali que ficaria tudo em paz. Na perícia, ao levar os exames, eu era atendida até por Ortopedista, para avaliarem minha situação. Super a ver, né?
Ficou insustentável. Não quiseram mais me dar licença, comecei a faltar. Fui comunicada que 30 dias de falta inativa uma pessoa a vida inteira, pois ela entra em processo administrativo e nunca mais pode prestar Concurso Público.
Assinei termo de exoneração daqui de São Paulo, minha mãe entrou com o processo no Rio, pois nem viajar eu aguentava mais, a essa altura eu já tinha perdido minha filha, minha avó, meu pai e agora meu emprego.
2014 ainda dá sinais muito intensos em mim. Marcou.

  • Ma

    Em 12.03.2017

    Vivemos juntas, apesar da distância esta fasee tão difícil. Confesso q ainda choro.
    Confesso ainda, que pedi orientação ao diretor da minha casa espírita. Recomendação: um abraço sem fim, que eu ainda não pude te dar. Sofri tanto por vcs, que precisei de orientação : nem todo meu conhecimento espirita pode ajudar.
    Espero poder te abraçar!
    !